BLUE-CITY - BAIRRO VONGOLA - APARTAMENTO 13 - 1:00
Eu tinha viajado com minhas idéias vingativas sobre o Jorge que nem tinha notado que o Sapiens havia saído quando cheguei em casa. Como sempre fazia, colocava a POLICARD* em cima da mesinha com a perna quebrada, no centro da sala de meu humilde e pequeno apartamento. Olhava-me no espelho e pensava comigo:
"Que desgraça é essa?!"
Sim, queridos. Não é fácil mentir pra si mesmo. Eu era um macaco. Me orgulhava disto, mas...Eu era diferente. Para aquele bando de merda, eu era um nada! Sabia que não era o único nesta situação, mas naquele momento nem notava isto.Conviver com a humilhação é um misto de ser correto e ter vergonha por isso. Ser direcionado a ter vergonha por isso. Por ser diferente.
Quantas vezes seu orgulho lhe iludiu tentando fazer você pensar que é alguém sem problemas? Alguém Feliz? Pois é, queria eu ser um merda de um alienado iludido o tempo todo.Queria eu dizer pra todo mundo, todo dia e toda hora: Fodam-se viados, falem o que quiser, eu não ligo. E eu até vinha fazendo isso. Mas aquele dia no bar era só mais um retrato de algo consequente em minha vida. Eu podia não dar o braço a torcer mais meu orgulho tava ferido.Meu orgulho de macaco, o que é mais precioso.
O filho da puta do Jorge ainda tinha de me falar aquelas respostinhas de cuzão.Cara, eu tava puto.Muito Puto. Já tinha fechado com o certo. Ser qualquer coisa que não humano, que não igual a sociedade, pra mim já era motivo de orgulho.Eu sabia que de baixo daqueles pelos e daquela aparência símia existia uma cuca legal, um cara inteligente, alguém com algum valor. Mas a sociedade cumpadi, é foda. Ta Salgado. Aquela droga de sociedade era severa. Cruel. Ela só queria saber do "venha nós".
Era difícil pra mim, detestava me prostrar diante a uma mera crise existencialista.Mas porra! Eu sou um macaco. Não por completo, eu sei. Mas todo mundo sabe que quanto mais diferente você é, menos indiferente as pessoas ficam. Elas querem participar de sua vida, mas contribuindo pro seu fracasso. Elas querem que você seja a fonte de orgulho próprio delas, pois para que sejam auto-suficientes precisam se sentir melhor que os outros. Precisam humilhar quem é diferente. Ser diferente não é ser legal. Ser diferente é ser avaliado, criticado, testado e muitas das vezes reprovado.
Ao me olhar no espelho todo santo dia, eu pensava em que resposta eu teria de dar pra mais um filho da puta que viesse me dizer uma piadinha. A quem eu queria iludir? Eu não era nada para eles e tinha de estar atento a isso. Mas quer saber pra onde eu olhava depois de me ver no espelho? Pra torre mais alta da cidade de BLUE-CITY que ficava de vista para meu apartamento: O palácio do Imperador. Quanto não se demorou para construí-la? Diziam que foi construída sob pulso firme do imperador pois todos desaconselhavam. Mas ela tava lá. Bonita pra caralho. E olha que beleza é subjetivo, nem sempre se agrada a todos. Mas com uma imponência daquela, com uma originalidade dessas, pouco importa a beleza, pouco importa o que foi que aconteceu, como foi feito.
Olhava também para o quadro de um dos representantes de minha raça que lutou pelos nossos direitos. Muito Foda o cara. Joseph Mahut. Eu nem em sonhos pensaria que chegaria a lutar ao lado dele.Mas fica pra uma outra hora explicar a história desse tigre. Alguém que impôs respeito, um cara que chegou lá.
Se você chegou ao topo meu chapa, eles vão ter que te respeitar. E era pra lá que eu mirava. Era pra lá que eu iria, fosse por bem, fosse por mal...
Era vergonhoso ter estas crises de viadinho, admito. Mas naquela época, era normal. O que deve ser levado em conta é que em um mundo tão pilhado como o que eu estava, uma hora você acaba cedendo às pressões e viaja. Pra se ter uma simples idéia mais da metade da população que restava tinha alguma patologia psicológica. Não sou perito nisto, mas sei que cada um tinha o seu surto. E vai por mim. Perto do de alguns, os meus problemas eram fichinha...
Sabe o Sapiens, pois é, o cara era quase um Freud. Nestes e em outros assuntos: sociedade, política, psicologia...E eu me aproveitava disto, precisava mesmo ter alguém pra conversar.O mundo tava me deixando pirado e o Sapiens me ajudava a ficar "tranks". Mas o forte do Sapiens na realidade não era o pensamento socio-político. O modelo do Sapiens foi feito para tomar decisões importantes. Auxiliar o seu dono a fazer as escolhas com maior margem de acerto diante das situações. Tomar decisões difíceis.Eu vivia precisando dele para isto.
Porém tudo mudaria quando eu visse o Sapiens passar por aquela porta com uma pistola na mão, a lataria toda suja de sangue e uma expressão robótica que, se humana, eu chamaria de cara de cú. Se o sapiens tivesse cú, este, estaria na mão dele.
Desta vez quem teria de tomar decisões difíceis seria eu. E quando eu tomo decisões, as consequências são severas...
[CONTINUA...]
*POLICARD: Espécie de carteira identificadora e oficializadora dos políciais patrulheiros de BLUE-CITY.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
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